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Mozambique: lesbian seeks refuge in Brazil

A refugee because of homophobia and violence in Mozambique, Lara was assaulted and saw friends being killed and raped for their sexuality. Since 2013, she has lived with her wife and child in São Paulo.

“He punched me in the face, I’ll never forget it,” recalls 37-year-old businesswoman Lara Lopes, referring to one of her memories of life in Mozambique, Southeast Africa, when she was attacked by a man in the street for being a lesbian. Another vivid memory was the day her own family excluded her from dinner. “I never forget the day I went to dinner at my aunt’s house with my cousins. They excluded me, put me in a corner by myself and forbade their women to talk to me”. Both episodes were based on the same reason: homophobia.

Her father, who was very involved in sport, heard other people talking about Lara and left the family because of his daughter’s sexuality. “He always heard something, but he never came to talk about it. One day he left the house, he didn’t tell anyone and when my mother tried to find out why, he said that I was using drugs, but I never did that in my life. I soon understood what was happening”, she says.

In addition to her father’s abandonment, prejudice, according to her, is part of a society strongly influenced by Christian religions, predominantly evangelical ones. “They cursed and yelled in the street, I sometimes heard it, without even knowing where the person was. Sometimes the person would throw something from the top of a building on our heads – there were people who would throw water”.

Other than that, Lara saw even more violent forms of homophobia in the country where it was a crime to be gay until July 2015. “In the south they do a lot. Two friends of mine who couldn’t stand the verbal abuse were murdered. I sometimes ask myself: if I were still in Mozambique wouldn’t that be me?”, she asks.

One of the cases she remembers was the day when a man attacked her at the end of a football game. “It was in a public field in the center of the city, called Campo do Estrela. It’s normal for men to hint, but there are people who swallow it, my friends don’t. The guy wanted to start a fight with us, he went for it completely, cursed us with a lot of names, he punched me in the face. And I’m absolutely sure that if he sees me today, he’ll remember it very well”, she says, disgusted. “These are things you can’t forget, they’re kept there in a little drawer”, she laments.

State violence
Homophobia is a legacy of colonialism that prevails to this day in at least 30 African countries which retain the criminalisation of same-sex relationships, or otherwise restrict non-heteronormative sexual practices, according to information from the 2019 State-Sponsored Homophobia report, produced by International Lesbian and Gay Association (ILGA).

Mozambique, which was a Portuguese colony, broke away from its Penal Code that penalised LGBT people in 2015, but no protection was granted in relation to sexual orientation or gender identity, says the report, which also pointed to the Mozambican state’s refusal to register the NGO Lambda Moçambique, which deals with LGBT rights”.

Lambda has been in a legal battle for more than 10 years to be legally recognized by the Mozambican government, despite being the first association for the defense of sexual minorities in the country. The entity’s performance was also part of Lara’s life. “Despite being dangerous, I have always lived with LGBT people, I was part of the direction of Lambda, which is still not accepted by the government. It is not an easy task. Religion influences so much, especially the evangelicals. They think they are the owners of the truth and position themselves as God. My wife’s mother is an extreme evangelical, for example.”

(Translated)

Refugiada por causa da LGBTfobia e da violência do Estado de Moçambique, Lara foi agredida e viu amigas sendo mortas e estupradas por sua sexualidade. Desde 2013, ela vive com a esposa e um filho em São Paulo

“Ele me deu um soco na cara, nunca vou esquecer isso”, lembra a empresária de 37 anos, Lara Lopes, ao se referir a uma das memórias de sua vida em Moçambique, sudeste da África – ela foi agredida por um homem na rua por ser lésbica. Outra recordação viva em sua mente foi o dia em que a própria família a excluiu de um jantar. “Nunca esqueço o dia que eu fui jantar na casa da minha tia, entre primos, eles me excluíram, me colocaram num canto sozinha e proibiram suas mulheres de conversarem comigo”. Ambos os episódios têm o mesmo motivo: LGBTfobia.

O pai, que frequentava muito o meio do esporte, ouvia outras pessoas falando de Lara e abandonou a família por conta da orientação sexual da filha. “Ele ouvia sempre alguma coisa, mas nunca chegou para conversar a respeito. Um dia ele saiu de casa, não falou para ninguém e quando a minha mãe procurou saber o porquê, ele falou que eu estava consumindo drogas, mas eu nunca consumi na minha vida. Logo entendi o que estava acontecendo”, conta.

Além do abandono do pai, o preconceito, segundo ela, faz parte da sociedade influenciada fortemente por religiões cristãs, predominantemente as evangélicas. “Xingavam e gritavam na rua, eu ouvia às vezes, sem nem saber onde é que a pessoa estava. Às vezes a pessoa jogava alguma coisa do alto de um prédio na nossa cabeça, tinha gente que jogava água”.

Fora isso, Lara viu formas ainda mais violentas de LGBTfobia no país em que era crime ser homossexual até julho de 2015. “Chamam a pratica de estupro em pessoas LGBTs de ‘violação cura’, ou ‘violação correctiva’, que agora na África do Sul eles fazem muito. Duas amigas minhas que não aguentavam os desaforos foram assassinadas. Eu às vezes me pergunto: será que se eu estivesse em Moçambique não estaria nessa estatística delas duas?”, questiona.

Um dos casos lembrados por ela foi o dia em que um homem a agrediu ao final de um jogo de futebol. “Foi em um campo público que fica no centro da cidade, chama-se Campo do Estrela. É normal os homens mandarem indiretas, só que tem gente que engole, minhas amigas não. O cara estava com vontade de criar briga com a gente, ele foi pra cima, com tudo mesmo, xingou a gente um monte de nome, ele me deu um soco na cara. E eu tenho a certeza absoluta que se ele me ver hoje, ele vai se lembrar muito bem disso”, conta, revoltada. “São coisas que não tem como você esquecer, está lá guardado numa gavetinha”, lamenta.

Violência do Estado
A LGBTfobia é uma herança do colonialismo que impera até hoje em ao menos 30 países africanos que persistem em manter como crime as relações entre pessoas do mesmo sexo ou em restringir práticas sexuais não heteronormativas, segundo informações do relatório Homofobia Patrocinada pelo Estado 2019, produzido pela Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA).

Moçambique, que foi colônia portuguesa, se desvencilhou de seu Código Penal que penalizava pessoas LGBT em 2015, mas nenhuma proteção foi concedida em relação à orientação sexual ou identidade de gênero, diz o relatório, que também apontou a negação do Estado moçambicano em registar a ONG Lambda Moçambique, que trata dos direitos LGBTs “.

Lambda está há mais de 10 anos em uma batalha jurídica para ser reconhecida legalmente pelo governo moçambicano, apesar de ser a primeira associação de defesa de minorias sexuais no país. A atuação da entidade também fez parte da vida de Lara. “Apesar de ser perigoso, eu sempre convivi com pessoas LGBTs, fiz parte da direção da Lambda, que até agora não é assumida pelo governo, não é uma tarefa fácil. A religião influencia ainda mais, principalmente na parte dos evangélicos, eles se acham os donos da verdade e se colocam na posição de Deus. A mãe da minha esposa é evangélica extremista, por exemplo”.

(Original)

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